“Vivemos a vida a ansiar momentos, guardar memórias. Fotografamos com os olhos na esperança da eternidade, e um dia acordamos e o corpo lateja, pedindo misericórdia a um relógio rápido demais, enquanto a mente faz o luto de um final feliz que parece nem ter tido o devido inicio.
Sinto falta de acordar em ti Santa Cruz, ver o teu dia nascer naquele alpendre tão nosso e sorrir à ilha do Maio que se revelava na linha do mar. Sinto falta dos sorrisos paternos de quem me protegeu, dos abraços de gente crescida dados por pequenos miúdos, dos teus caminhos de pés calejados e da morabeza que apenas a ti pertence.
Desta vez era dia 29 de Julho. Era domingo à tarde, quando de mãos e mentes dadas, levei cinco luzes para o sítio mais especial e bonito do mundo, pelo menos… do nosso. Se alguém diria? Eu cá, já sabia.

Carregados de emoções, de mochilas pesadas de expectativa e vontade de trabalhar, trinta dias caminhámos juntos. O Emanuel disse-nos “Bom dia”, não só uma, mas umas dezenas de vezes naquele dia. A Janine? Bom, ela gostava de nos levar a casa ao almoço, por trilhos de histórias e sorrisos. (…) Sr.Luís…irá ele acreditar para sempre que um dia seremos bons pescadores?

Num mês coube-me um livro. Aliás, em mais um mês coube-me mais um capítulo extenso. (…)

Santiago, fomos dar e receber. Foste dar-nos e receber-nos.

Não é fácil aceitar que acabou, ver 30 dias passar num folhear de um caderno, numa fotografia cheia de cor e num abraço cheio de lágrimas. Afinal, ninguém disse que seria fácil aceitar que acabou, mas alguém me disse que seria fácil voltar e bater-lhe à porta.”

Excerto de Diário de Missão – 4 Out. 2018

Lembro-me de quando o escrevi. Quando alinhei pela primeira vez nesta ida sem volta que é o voluntariado internacional, não tinha ideia daquilo em que realmente me estava a meter.

O caminho começou no final de 2016, quando me inscrevi numa associação de jovens com uma grande amiga, numa jogada um tanto impulsiva. O percurso que se avizinhava de reuniões, voluntariado local e angariação de fundos era longo, e a minha capacidade de visualização para me colocar em Agosto – na possibilidade real de partir em missão, para um sítio que não conhecia, com pessoas que não conhecia, durante um mês – era muito pouca.

Como em tudo, o tempo passou. Acordei, confirmei se pelo menos do passaporte não me esquecia e quando me caiu a ficha estava a aterrar, a ver Santiago, castanho-cinza da pequena janela do avião. Lá estava eu, com 5 pessoas já nada desconhecidas tantos meses depois, num país mais familiar que a familiaridade portuguesa. E foi desde esse dia.

Podia dizer que foi sorte, que a aleatoriedade jogou a meu favor, mas acredito que foi bem mais que um golpe do acaso.

O sítio para onde fui chama-se Santa Cruz, um grande concelho a meia-hora da capital, Praia. Trabalhávamos maioritariamente num centro recreativo local, a dar aulas todos os dias das semanas, e uma noite por semana, ou duas se a força o permitisse, fazíamos patrulhas noturnas de proteção de tartarugas na praia, das 22h às 6h, divididos em dois turnos. É sempre importante lembrar que os mesmos locais que mostram carências em certos aspetos em que nós já andamos sem mãos e de olhos fechados, também manifestam um desenvolvimento cultural e mental noutros aspetos em que por vezes ficamos bem atrás…O nosso propósito era apenas apoiar. Levar ferramentas que pudessem ser úteis sem alterar a natureza do país e do povo. Importa adaptar, e dar a mão. E agora digo, 1 mês? Pouquíssimo tempo.

Perdi a conta das atividades que fizemos, desde limpezas da praia com a comunidade, a encontros de jovens aos domingos, participámos e demos de nós em todas as oportunidades.

Costumamos dizer que trazemos de volta muito mais do que aquilo que lá deixamos. Não sei se será verdade, mas sei que hoje, quase 4 anos depois, ainda habitam em mim as coisas boas que trouxe.

Assim sendo, no ano seguinte – em 2018 – segui o mesmo caminho e acabei por partir novamente em missão, como responsável de equipa. Um ano depois, Santa Cruz não era a mesma. As coisas mudam. E lá estávamos de novo. A equipa teve muito mais trabalho em mãos, as iniciativas de voluntários locais cresciam exponencialmente e precisavam de apoio, as crianças apareciam de todas as terras. Já não tínhamos um ou dois focos, éramos autênticos polvos a tentar fazer tudo. Seis da tarde e o cenário no nosso alpendre de casa era uma equipa de companheiros, derreados no chão mas a transpirar felicidade. Um tentava lavar um lençol sujo numa bacia, enquanto alguém revia as formações do dia seguinte. Alguém havia de se queixar de irmos jantar algum enlatado, e por certo um de nós estaria refugiado no quarto a dormir os 10 minutos de glória no seu colchão de ar.

Não havia um segundo de solidão, pelo contrário, sorrisos marotos espreitavam do muro de casa para ver o que estávamos a fazer, outros pequenos pediam muito para jogarmos à bola só mais um bocadinho, e na maior parte do tempo o portão estava escancarado a quem quisesse entrar e fazer companhia.

Histórias de missão podiam dar um filme, mas deram memórias que conservo com muito carinho. Deixei a associação com quem realizei as duas missões, mas a forma como Cabo Verde se alojou na minha vida, hoje impede-me de ficar em solo português muito tempo. E se antes já tinha o bichinho cá dentro, hoje questiono onde quero passar mais tempo…cá, ou lá.

Desde essa altura, regresso à minha segunda casa sozinha, sempre que o tempo me permite. Em 2019 tive a chance de conhecer outros sítios, ilhas, enraizando de uma nova forma. Foi na segunda ida desse ano, em Junho, que fiquei a trabalhar na OMCV – Organização da Mulher Cabo Verdiana, ONGD com que fiquei quase 3 meses.

Hoje, o que vou lá fazer? Férias. Trabalhar. Passear. Como costumo dizer: respirar o ar que a família africana me traz.

O que o futuro me reserva, não tenho pressa em saber. Este presente, é presente que chegue.